ATENÇÃO REDOBRADA

Sentado no banco de uma praça próxima de casa, leio Caio Fernando Abreu enquanto Quentin — meu cachorro — descansa aos meus pés.

 

Dois pedreiros, que trabalham na construção de um edifício, se aproximam. Passam a mão na cabeça do cachorro. Um deles diz: 

 

— Tive um desses. Era malhado.

 

Eu respondo: 

 

— Ah, é?

 

Ele continua: 

 

— No fim, deixamos o portão do pátio aberto e ele saiu. Foi pego por dois pit bulls. Estraçalharam ele. Meu filho juntou só os pedaços. Uma pena.

 

Fico em silêncio.

 

O pedreiro número 1 segue seu caminho, mas o 2, acocado, continua fazendo carinho em Quentin. Quando se ergue, também relata sua história:

 

— Tive uma fêmea dessa raça. Usava topinho nas orelhas e tudo. Minha irmã era apaixonada por ela. Pegamos ainda filhotinha.

 

Com receio, pergunto: 

 

— E o que aconteceu?

 

— Saiu pelo portão de casa e um carro atropelou. — Faz o barulho com a boca: "Vrummm, poft". — Pegou bem no meio dela.

 

— E o carro não parou pra prestar socorro? — pergunto.

 

— Não. Nem tinha como. Voou tripa pra todos os lados. Consegui juntar uma pedra e arremessar no carro. Acertei a lataria. Mas ainda assim o cara seguiu em frente. — Ele suspira, baixa a cabeça. — Minha irmã ficou um mês de cama por conta da cena da cadela estripada na rua. Não gosto nem de lembrar.

 

O pedreiro número 1 o chama:

 

— Vamos, Chupa-Cabra, daqui a pouco temos de voltar.

 

Chupa-Cabra se despede e vai de encontro ao colega.

 

Eu respiro fundo. Me sinto aliviado por não ter o número 3 nem o 4.

 

Coloco a guia no Quentin e vejo se está bem atada. Regresso para casa com a atenção redobrada.

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