PERTURBAÇÃO MATERNA

Estou tentando me concentrar, escrever alguma bobagem. Mas está difícil, a coroa insiste em encher o colchão com a bomba de ar.

 

Pisa, pisa e pisa.

 

Quer armar acampamento no meio da sala.

 

Eu digo:

 

— Qualé?

 

Ela responde:

 

— Qualé o quê?

 

— Pô, tô tentando me concentrar. Preciso de silêncio absoluto.

 

— Ah, vai pro quarto.

 

— Não tenho mesa de trabalho nem escrivaninha. Tem que ser aqui na sala.

 

— Minha televisão pifou, esqueceu?

 

Naquela tarde, minha irmã ao tentar encaixar um cabo HDMI atrás da televisão da mãe, deixou o aparelho cair no chão.

 

A coroa continua:

 

— Não consigo pegar no sono sem a tevê estar ligada.

 

— Cacete! E quando irá comprar outra?

 

— Não sei. Quando tiver dinheiro.

 

Suspiro e finalizo:

 

— Ok, desta vez a vitória é sua.

 

Depois do colchão, viria a reprise do Roque Santeiro no Canal Viva. Eu não aguentaria tamanho martírio.

 

Fecho o notebook e me levanto. Ela continua pisando na bomba de ar. Olho pela sacada da cobertura e a madrugada está estrelada. Fará um dia ensolarado amanhã. Vou até a cozinha e, através do liquidificador, preparo um Daiquiri.

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