PROMESSA DE DIFÍCIL DIGESTÃO

Há sete anos, Camille roubou meu coração. Oh, sim, e de maneira arbitrária, desleal.

 

Rezei para Nossa Senhora de Guadalupe para que Camille ingressasse na faculdade: curso de Medicina em uma Universidade Federal.

 

Prometi para o Céu que, se ela passasse no vestibular, compraria uma estatueta de Nossa Senhora de Guadalupe.

 

Camille não passou, ficou apenas na suplência.

 

Pensei durante três ou quatro dias: Compro ou não compro? Compro ou não compro?

 

Comprei.

 

Já estava de olho nesse estatueta há tempos. Não seria por um percalço que deixaria de realizar meu desejo.

 

A estátua media uns vinte centímetros e ficou ao lado da cama, em cima do criado-mudo. 

 

Dois dias depois de adquiri-la, recebi uma ligação de Camille me avisando que havia entrado na segunda chamada. 

 

Estava alegre, entusiasmada.

 

A Universidade era em outra cidade: três horas de viagem.

 

Agradeci a Guadalupe pela sua benção. 

 

Quando estava arrumando sua mala para viagem, Camille, sem escrúpulos, pegou minha estátua e avisou que a levaria junto. 

 

— Tenho uma dívida de gratidão com Guadalupe —  ela disse, enrolando a Santa em folhas de jornal. Eu, para não arrumar encrenca, apenas acenei positivamente.  

 

Seis meses se passaram e Camille me trocou pelo professor da cadeira de anatomia.

 

Está com ele ainda hoje e parece que tiveram uma filha.

 

Mesmo naquela época, o desejo dela era subir rápido na profissão. Sempre foi ambiciosa, profissionalmente. E deu certo. 

 

Pelo que tudo indica, hoje Camille está bem e eu continuo aqui: ainda movido à promessas na companhia de duas estatuetas de Santo Antônio e uma de Santo Expedido.  

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