CONFISSÃO DE AMIGA

Nora e Laísa estão sentadas embaixo de um quadro de Lauren Bacall. O pub em que se encontram tem a temática dos anos 50. Nora, trinta e oito anos, cabelo curto, brinco de argola e pouca maquiagem, bebe um chope pilsen. Laísa, cabelo longo, crespo, rímel nos cílios e vestida de terninho azul, bebe uma caipira de morango.

 

— Amiga, preciso te confidenciar algo — diz Nora, olhando para uma das unhas.

 

— Adoro confidencias — comenta Laísa, animada.

 

— Mandei o Paulo embora.

 

— Meu Deus, amiga! Não brinque com isso.

 

— Não é brincadeira, bem pelo contrário, é a mais pura verdade. Fiz a mala dele e o que não entrou, pus dentro de umas sacolas do Nacional e chutei sua bunda pra fora de casa.

 

Laísa se ajeita na cadeira, puxa a caipira pelo canudo e diz:

 

— Pode me contar direitinho. Quero saber de tudo!

 

— É simples: ele estava me traindo e isso eu não admito.

 

— Nããoo creeeiooo! — diz Laísa, espantada. — Com quem?

 

— Não sei e nem me interessa. O que importa é a traição.

 

— E como você soube?

 

— Pelas atitudes dele. Você é mulher, Laísa, sabe que o nosso sexto sentido raramente falha.

 

— Isso é verdade. Mas quais atitudes do Paulo que te fez ter toda essa certeza?

 

— Ah, foram três: o beijo dele ultimamente parecia mais uma benção de padre do que realmente um beijo. Depois, não queria saber mais de transar, e quando tentava, o pau não subia. E por último, eu falava e ele nunca prestava atenção. Às vezes eu perguntava sobre o trabalho e ele me respondia sobre o tempo. Dá pra acreditar?

 

— Daí é demais mesmo, amiga. Você fez bem de tê-lo mandado pra rua. — Laísa dá uma boa chupada no canudo terminando sua caipira. Chama o garçom. — Poderia me ver uma colherinha?  

 

— Claro — ele responde.

 

Nora intervém:

 

— E mais um pilsen pra mim.

 

O garçom assente e sai para buscar os pedidos. Laísa continua:

 

— Nem transar?

 

— Nem transar. E o pior, cheguei a comprar uma lingerie nova com cinta-liga e tudo, e ele nem aí.

 

— Ai, amiga, que situação.

 

— A gota d’água veio depois de eu comprar um hidratante maravilhoso de baunilha. Paguei um dinheirão. E seja sincera, Laísa, qual homem resiste a um hidratante com esse perfume?

 

— Acho que nenhum — diz Laísa, sem muita firmeza.   

 

— Então, com certeza estava gastando à energia dele com outra vadia. Não há outra explicação. Devia estar sempre pensando nela.

 

— E ele alegou o que quando o expulsou?

 

— Falou que estava desgostoso com a vida e que jamais havia me traído. — Nora respira, tentando deixar a raiva se esvair um pouco. — Você sabe, amiga, o mesmo papinho de sempre. Fez aquele olhar de cachorro abandonado, e isso me irritou ainda mais. Detesto esse olhar.

 

— Ai, Nora, você é faca na bota. Um exemplo de mulher!

 

— Comigo não tem essa. Ou é A ou é B, nada de C.

 

— É isso aí.

 

Nora termina seu chope. Um momento de silêncio. Laísa pensa, faz menção de falar algo, mas o garçom chega com a colher e a pilsen. Leva o copo de Nora, vazio. Laísa começa a comer os pedaços de morando do copo. Sem conseguir se conter, pergunta:

 

— E se você estiver errada, já pensou nessa hipótese?

 

— Não. Tenho convicção da traição.

 

— Mas vamos conjecturar um cenário hipotético. Apenas conjecturar — diz Laísa, tentando não parecer provocativa. — E se você estiver errada?

 

— A vida não retrocede, Laísa. Se eu estiver errada, errei. Ponto. Sigo em frente. Assim é que deve ser.

 

— Hmm, entendi. E você está bem?

 

— Não podia estar melhor — afirma Nora com convicção. — Ter um aipim em forma de homem dentro de casa e nada, dá praticamente na mesma, com a diferença que agora meus gastos são menores.

 

Laísa sorri timidamente e pergunta:

 

— E você sabe pra onde ele foi?

 

— Desconfio que pra casa de alguma amigo. Provavelmente para a do Pietro, aquele vagabundo inútil.

 

— E se ele bater na tua porta, de joelhos, segurando um lindo buquê de rosas e pedindo o seu perdão. Você não o aceitaria de volta?

 

— Faria ele engolir toda as pétalas do buquê. Uma a uma.

 

Laísa, satisfeita, come o último pedaço de morango enquanto Nora bebe um gole de seu chope. Um clarão desponta no céu e um raio cai a alguns quilômetros dali, seguido de um estrondo. 

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