CONFISSÃO DE AMIGO

Na área externa de uma cafeteria próxima ao centro da cidade, Paulo e Pietro estão sentados com suas respectivas xícaras à frente. Paulo, quarenta anos, blazer manchado de alvejante e gravata borboleta, bebe uma mistura de café com uísque. Pietro, camiseta básica preta, jaqueta de couro, calvo mas sustentando um pequeno rabo de cavalo, bebe café com raspas de limão.

 

— Ah, compadre, preciso te confidenciar algo — diz Paulo, acendendo um cigarro.

 

— Confidencie — diz Pietro, encorajando o amigo.

 

— Nora me largou.

 

— Largou nada. Deixa de brincadeira — comenta Pietro, tirando seu isqueiro Bic do bolso e acendendo um Marlboro.

 

— É verdade, compadre. Me colocou pra fora de casa.

 

— Como assim, te colocou pra fora de casa?

 

— Não esqueça que o apartamento é do pai dela. Simplesmente cheguei em casa ontem e minhas roupas estavam dentro de uma mala e de sacolas de supermercado.

 

— E você aceitou?

 

— Ia fazer o quê? Ela estava irredutível — diz Paulo, baixando o olhar e bebendo um gole do seu café.

 

— Mas isso não tá certo. Quer que eu fale com ela?

 

— Não, ia piorar tudo.

 

— E você tá ficando onde?

 

— Numa pensão aqui perto.

 

Pietro levanta a mão e chama o garçom, que se aproxima.

 

— Duas doses de uísque, puro — pede Pietro. O garçom sai e Pietro continua: — Mas qual o motivo pra essa atitude tão radical da Nora?

 

— Ela afirma que estou traindo ela. — Última tragada, cigarro no cinzeiro. — O que é uma tremenda bobagem.

 

— Traindo com quem?

 

— Perguntei isso pra ela, disse que não sabia, mas tinha certeza que eu estava traindo-a.

 

— E da onde vem essa certeza?

 

— Ah, Pietro, ela diz que não beijo mais com tanta intensidade, não a procuro mais pra transar e que estou sempre fora do ar, sem dar atenção a ela.

 

— E é verdade?

 

— Sim, é verdade.

 

— Mas por que disso, camarada? — pergunta Pietro, enquanto o garçom coloca os uísques sobre à mesa. Pietro apaga o cigarro, levanta o copo e brinda com Paulo.

 

— Sabe, compadre, estou desmotivado. Tô numa fase que não ando com vontade de ler, de acompanhar futebol e nem a fim de trepar. E você me conhece há quantos anos? Quinze? Vinte? Quando me viu sem um livro na mão? Ou sem acompanhar fervorosamente o Inter? Agora tô sem vontade pra nada.

 

— Por que disso? É preocupante.

 

— Não sei. Fase dos quarenta, talvez.

 

— E você disse isso pra ela?

 

— Claro que disse. Mas Nora insiste na tal traição. Diz ter o sexto sentido aguçado e que ele nunca erra e essas merdas todas.

 

— Que barra, companheiro. Que barra. — Pietro termina o uísque e, em seguida, seu café. — Mais uma dose?

 

— Estou bem, obrigado — diz Paulo, terminando seu café e acendendo outro cigarro.

 

— Faça assim — diz Pietro, enquanto acende um Marlboro —, pegue suas coisas e fique lá em casa por alguns dias, até se estabilizar. De repente vocês voltem.

 

— Nora é escorpiana, duvido que dê o braço a torcer. — Paulo assopra a fumaça para cima e mata seu uísque. — Nem se eu voltasse de joelhos me autoflagelando com uma chibata, ela me aceitaria.

 

— Buquê de rosas?

 

Paulo ri, melancolicamente.

 

— Ela me faria comer cada pétala.  

 

— É, fica difícil daí — fala Pietro, consternado.

 

— Põe difícil nisso — concorda Paulo.

 

— Ao menos fique lá em casa até achar um lugar melhor pra morar.

 

— É, quem sabe.

 

Os dois amigos tragam e expelem a fumaça dos pulmões. Um silêncio se faz presente na mesa. Na rua, um carro buzina e um homem retruca e grita um palavrão ao motorista. Uma senhora, de bengala, compra um cacho de bananas na quitanda à frente da cafeteria e um garoto, de quatorze anos, tira o chiclete já sem gosto da boca e o arremessa no chão.

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