NÃO FAÇA SURPRESA SE NÃO QUISER SER SURPREENDIDO

Depois de sete horas de viagem, Manaus/Porto Alegre, retornei para casa cansada, com dores musculares e pedindo encarecidamente minha cama.

 

Cheguei dois dias antes do previsto, algo raro de acontecer. Mas tudo foi resolvido e a madeireira multada.  
 

O avião aterrissou no aeroporto Salgado Filho às 2h02. Embarquei em um táxi e cruzei a cidade. Mansamente, coloquei a chave na fechadura e abri a porta. Estava sem força, cada movimento era feito lentamente. Deixei a mala ao lado da mesa de jantar e, sentando no sofá, tirei os Peep Toe dos pés.
 

Meus dedos me agradeceram: Obrigado, mamãe.
 

O silêncio me fazia companhia. Caio, meu marido, devia estar dormindo. Junto com a identificação do IBAMA, tirei um maço de cigarros da bolsa e acendi um. Deixei as costas caírem no encosto do sofá e relaxei. Depois de algumas tragadas, apaguei o Djarum Black no cinzeiro e estava pronta para um banho quente e reconfortante. 
 

Subi as escadas para o segundo andar onde localizava-se dois quartos — eu não tinha filhos, mas planejava ter um. Ao me aproximar do quarto principal, suspiros profundos ecoavam lá. Por uma fresta da porta, enxerguei Caio deitado de costas, enquanto, empolgadamente sobre o seu pau, cavalgava uma mulher de cabelos escuros e crespo.
 

Eles pareciam felizes.
 

Dos gemidos dele, exalava uma espécie de satisfação que há tempos não escutava. Naquele momento, meu cansaço se esvaiu. Bolhas de raiva borbulhavam dentro de mim.
 

Cachorro!
 

Safado!
 

Canalha!
 

Em uma fração de segundos, a razão gritou ao meu ouvido. Regressei para baixo e, de dentro da bolsa, peguei minha pistola .380. Engatilhei e voltei para as escadas. Enquanto subia os degraus apressadamente, um insight me ocorreu. Parei. Pensei por um instante e lembrei de uma história que tinha lido na internet anos atrás. Fui até o banheiro e peguei um tubo de Super Cola Bonder.
 

Parada à porta do quarto, observei a cópula silenciosamente.
 

A primeira a me ver foi a amante, que deixou escapar um grito. Olhei para ela com a pistola na mão direita e a cola na esquerda, e disse:
 

— Podem continuar até gozar.
 

Cortei o barato da cavalgada. Imediatamente, Caio saiu debaixo da mulher e broxou.
 

— Não vão continuar? — perguntei. — Então a palavra é minha.
 

Arremessei o tubo de Bonder que caiu sobre a cama. Os olhos de ambos saltaram das cavidades oculares. Gostei da cena.
 

Detalhe: minha bunda tinha menos celulite que a dela.
 

Ah, que satisfação!
 

A amante tentou sair da cama, mas disparei um tiro que acertou a parede atrás deles, mostrando que eu não estava para brincadeira.
 

— Coloque a cola no pau do sem-vergonha e segure-o — bradei para mulher.
 

Caio chorava.
 

A amante chorava.
 

Eu sorria.
 

Meu marido pedia encarecidamente que eu parasse. Implorava perdão. Queria conversar, falou dos nossos cinco anos juntos, que a amante não tinha nada a ver com a história e toda essa ladainha que proferimos na hora do desespero. Mandei-o ficar quieto e exigi que a garota andasse logo com aquilo.  
 

Ela começou a lambuzar com a Bonder o cacete do sacana.
 

— Está bom assim? — perguntou.
 

Mais! Mais! E mais!
 

— Todo o tubo — eu disse.
 

Eu queria todo tubo emplastando o caralho dele. Mandei a mulher agarrá-lo com força. Relutou, mas segurou assim que cogitei em trocar a mão pela boca. Tentaram me chantagear: 20 mil, 35 mil, 50 mil. Outro disparo foi dado e outro furo feito na parede. Com a mão direita, a amante agarrou o caralho. Esperei alguns minutos até a cola secar. Sem mais nada para fazer, saí do quarto e chaveei a porta.
 

Ambos blasfemavam contra a minha pessoa. Xingamentos jorravam em todas as direções. 
 

Eu pensava: “Dever cumprido, agora estão colados um ao outro. Hahá.”
 

Desci as escadas, sentei novamente no sofá e coloquei os Peep Toe de volta nos pés. Peguei a mala e me hospedei no Plaza São Rafael.

 

**
 

A matéria sobre o acorrido saiu nos principais jornais do estado: Zero-Hora, Correio do Povo, O Sul, O Pioneiro; e em diversos sites da internet: Terra, UOL, Globo, IG.
 

Parece que a ação dos médicos foi um sucesso e ambos já estão separados.
 

Levaram-me para depor no dia seguinte enquanto tomava café da manhã no restaurante do hotel. Hoje, moro com minha mãe e espero a data do julgamento ser marcada.
 

Se você perguntar se estou arrependida, a resposta é não.
 

Se você perguntar qual o real sabor da vingança, eu direi: doce como sacarose.
 

E se você perguntar qual o aprendizado que tirei dessa história toda, responderei: Por mais pateta que a esposa seja, uma mulher traída é sempre perigosa.

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