VÍCIO INFANTIL

Desde muito jovem — cinco ou seis anos — gosto de me vestir de menina. Sempre idolatrei minha mãe: uma mulher elegante e de muita classe. Meu pai também tem classe, é um importante empresário do ramo dos cosméticos. Entretanto, por ele estar sempre viajando, fui educado pela minha mãe.

 

Tenho uma irmã, se chama Giulia e é dois anos mais velha do que eu.

 

Era dela que eu surrupiava as roupas e a maquiagem.

 

Por duas vezes fui pego no flagra pela minha mãe. Em ambas as vezes fui reprendido e, numa delas, até apanhei. Na visão dela era inconcebível que eu, um garotão loiro, de olhos azuis, e com o estereótipo perfeito para conquistar mulheres e fama, tivesse uma tendência diferente da tradicional.

 

Continuei usufruindo das roupas femininas escondido.

 

Na juventude, ficava me venerando no espelho. Fazia dancinhas, me exibia, tirava cada peça de roupa devagar, como num clube de strip-tease e, conforme ia ficando cada vez mais nu, me masturbava com afinco.

 

Dava cada gozada que às vezes me perguntava se minha alma não havia saído junto.

 

Hoje sou casado. Tenho trinta e oito anos e dois filhos. Porém, nunca perdi esse vício. Só consigo chegar ao prazer-pleno quando me fantasio de mulher. Para isso, uma vez por semana saio com uma puta. Na verdade, tenho três prostitutas com quem saio alternadamente. A cada encontro encarno uma personagem diferente. No último me fantasiei de Jessica Rabbit. Pus até uma peruca vermelha e, modéstia parte, atuei de maneira incrível.

 

Nunca tive nenhuma relação homossexual. Homens não me excitam.

 

Há quatro dias ao chegar no condomínio onde resido, o porteiro me entregou um envelope. Nele continha um DVD. Não tinha nome de remetente nem nada. Quando abri o envelope, havia um bilhete dizendo que era para eu assistir o conteúdo do disco sozinho. Ao assisti-lo no notebook, vi três das minhas últimas performance com a prostituta Greyce Mel.

 

Bandida!

 

As imagens mostravam eu engatinhando (fantasiado de Pedrita), rebolando (de Carla Perez), me alisando com uma cobra de brinquedo (Salma Hayek), trepando e gozando. O baque foi tão grande, que senti como se um poste tivesse caído sobre o meu crânio.

 

Um dia depois, recebi outro envelope. Mas desta vez era uma carta dizendo que eu deveria pagar três mil reais todo mês para esse vídeo não cair nas mãos da minha esposa e na internet.

 

Me deram cinco dias para decidir.

 

Agora estou numa parada de ônibus e não há muita gente. Eu já tenho minha resposta para eles. Jamais tirarei dinheiro dos meus filhos para dar a chantagistas safados e canalhas. Sou engenheiro civil e pago um seguro de vida gordo.

 

Mesmo que no futuro meus filhos venham a se envergonhar do pai, ao menos se envergonharão com muita grana no bolso.

 

Deixo uma moeda cair em direção à rua e jogo-me de encontro a ela, enquanto um ônibus passa por ali.

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