RAPADURA

Madrugada e a campainha toca. Descanso o cigarro no cinzeiro e vou ver quem é. Através do olho mágico, enxergo Mirim parada no corredor.

 

Abro a porta e ela entra aos borbotões.

 

— Que houve, Miriam? — pergunto fechando a porta. — Como você entrou no prédio?

 

— Depois te conto. Me prepare uma bebida.

 

— Vamos, mulher, que tá pegando?

 

— Seja bonzinho, Rino, tô de bico seco. Prepara algo pra eu beber.

 

Vou até a cozinha e pego uma garrafa de vinho branco — pela metade — e dois copos americanos.

 

Regresso para a sala e Miriam está estatelada sobre o sofá.

 

Encho seu copo e ela bebe num gole só.

 

Despejo mais vinho e de novo o líquido some num único gole.

 

— Me dê logo a garrafa — exige.

 

Entrego para ela e puxo uma cadeira.

 

— E agora, vai me contar o que houve? — pergunto.

 

— Cansei de fazer programa, Rino. Cansei. Não quero mais.

 

— Por quê?

 

— Você acredita que o cara queria que eu esfregasse uma rapadura no cu dele e depois lambesse?

 

— Olha, já vi pessoas com fantasias muito piores. Até que esse teu cliente pegou leve.

 

— Ah, Rino, não brinca com isso. Se tivesse no meu lugar, entenderia. Cheguei a vomitar na frente do sem-vergonha quando ele desenrolou a rapadura do plástico. Tenho nojo de rapadura e de pé de moleque. Por muitos anos minha avó me obrigou a comer isso. Era praticamente minha refeição diária.

 

— Entendo seu drama — digo em tom conselhador. E pergunto: — Quer dormir aqui hoje?

 

— Tem mais vinho?

 

— Três garrafas.

 

— Cheias?

 

— Lacradas.

 

— Aí tu me conquista! — exclama ela, sorrindo.

 

Levanto da cadeira e me deixo cair ao seu lado no sofá.

 

— Às rapaduras — digo, brindando.

 

— Às rapaduras — ela finaliza.

 

Bebo meu vinho visionando uma noite longa e agradável.

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