CAJADO DE TOURO

Ele não era cristão, nem umbandista, nem espírita, nem judeu. Não tinha religião. Era cético e ateu. Levava a vida da melhor maneira possível a seu ver. Participava de pequenos bacanais e orgias. Mas sempre amou apenas uma mulher.

 

Marta, diferente de seu marido, tinha como padrinhos espirituais Oxum e São Benedito. Acreditava muito neles.

 

Sentia-se uma mulher de sorte. Era amada e bem resolvida no sexo. Manolo não era humano na cama. Transformava-se num primata, num ogro, num selvagem. Orgulhava-se quando contava para as amigas sobre o seu marido-amante-latino. Falava com brilho nos olhos do tamanho do cajado que aquele negro carregava no meio das pernas. Dizia envaidecendo-se que sentia dor até no útero. Era uma dor gostosa e que a excitava ainda mais. Vinte e sete centímetros, era esse o tamanho exato da manjuba. Mediram certo dia bêbados de vinho. Ela, só de lembrar, já sentia umedecer a calcinha. As amigas, curiosas, uma a uma foram tentando desvendar a lenda do cajado de touro. Manolo, sem perder sua virilidade e se mostrando o macho que era, penetrava todas. Não interessava se eram amigas ou não de sua esposa. Não quebrava o principal princípio que guiava sua vida: não recusar um corpo feminino. Se elas queriam dar, ele fodia sem rodeios ou frescuras. E cada uma foi enfeitiçada pelo cajado de touro. Marta nunca soube. Na verdade, sabia que Manolo não era fiel e colecionava diversas mulheres por aí. Compreendia isso. Um pau daqueles não podia ser contemplado apenas por uma mulher, seria egoísmo demais. Mas não imaginava que todas suas amigas, sem exceção, estavam se entregando a Manolo.

 

A vida de ambos corria bem: Manolo trabalhava numa mecânica automotiva, e Marta lavava roupa para algumas grã-finas. Porém, sem pedir licença, a desgraça entrou na vida do casal.

 

Manolo, com muita cocaína no nariz e muito uísque no fígado, chegou em casa de madrugada, acelerado, possuído, agressivo. Sempre fora machista, mas nunca bateu em uma mulher. Contudo, naquela noite, entrou pela porta do pequeno casebre, arrancou Marta da cama e, sem a deixá-la contestar, estapeou seu rosto.

 

Marta ficou atônita com a atitude do marido, pensou que fosse um sonho.

 

Levou outro tapa.

 

Sentiu sua camisola sendo rasgada e, aos gritos, Manolo a possuía e a xingava:

 

— Sua puta, vagabunda! É isso que você é, e assim será tratada.

 

Marta chorava enquanto era penetrada com violência. As palavras travavam em sua garganta. Nunca havia sentido aquela sensação. Manolo agarrou seu pescoço e a sufocou, deixando o pau deslizar para dentro de sua boceta seca. Marta sentiu o desespero começar a virar excitação. Relaxou. Manolo não se conteve, a virou e puxou com força seu cabelo crespo. Quanto mais violento ele ficava, mais excitada a deixava.

 

Trinta minutos se passaram até Manolo jogar toda aquela porra em cima de Marta. Ele deitou bêbado e cheirado ao seu lado, caindo imediatamente num sono profundo. Ela acendeu um cigarro e apenas pensou: sempre fora submissa a Manolo, mas aquela sensação de ser violentada por aquele cajado de touro era nova, e a tinha agradado.

 

Manolo roncava quando ela sentiu algo escorrendo entre as pernas. Sangue. Tentou acordá-lo, mas ele a mandou a merda e, virando-se de costas, voltou a dormir. Marta levantou desesperada e bateu na porta de sua vizinha mãe de santo. Uma vez ou outra Mãe Preta de Ogum colocava cartas para Marta. Não eram amigas, e sim, boas vizinhas. Imediatamente, sem muitas perguntas, Mãe Preta pegou seu Chevette e a levou para o hospital. Marta chegou perdendo muito sangue. Estava praticamente desacordada. Nunca passou por aquilo. Sentia como se tivesse levado um tiro na bexiga. Horas depois foi informada que estava grávida e havia perdido o bebê. “Bebê?”, se perguntou Marta. Estava grávida de um mês e não sabia. Sua menstruação era desregulada, sempre fora. Era pobre e nunca se importou com isso. Ficou triste, não em estado de choque, apenas triste e com raiva. Manolo, aquele filho da puta, havia matado seu primeiro filho. Não sabia se foram os tapas, os socos ou aquele pau enorme que a perfurou. Mas não importava. O fato era que tinham cometido um assassinato. Sentiu-se cúmplice e culpada, pois não fez nada para impedir, e até gostou.

 

Manolo a visitou no hospital, horas antes de receber alta. Marta olhou em seu olhos. Um misto de ódio e nojo a possuía. Não demonstrou. Recebeu a rosa e o beijo dele de maneira carinhosa, como se ninguém houvesse sido culpado, tratando a perda da criança como uma decisão Divina. Voltaram para casa.

 

Deixou passar três dias para tentar diminuir sua raiva, mas o tiro saiu pela culatra. Seu ódio apenas aumentou. Manolo, sem a mínima compaixão e consideração, chegou os três dias bêbado e fedendo a puta. Pensou em se separar ou fugir. Mas isso não serviria. Precisava fazer Manolo pagar pela sua falta de preocupação diante da perda de um filho seu. Entendia agora por que diziam que o amor e o ódio caminhavam lado a lado, de mãos dadas.

 

Nessa mesma noite, Manolo dormia bêbado. Marta observava o sono profundo e revigorante do marido. Ficou pensativa por alguns minutos e caminhou até o banheiro. Abriu o espelho e pegou a navalha na qual Manolo fazia a barba. Se ajoelhou, fez uma oração para Oxum, acendeu uma vela para São Benedito e pediu perdão. Andou até a cama onde Manolo roncava pelado, pegou o grande cajado de touro e, com dois golpes, o decepou. O urro de Manolo ouviu-se a quilômetros de distância. Assim como gritava que nem um selvagem quando gozava, agora, com a mesma intensidade, urrava de dor. Com o cajado na mão, Marta o enfiou na boca de Manolo para abafar o som. Andou para fora do quarto e chaveou a porta. Manolo não sabia se cuspia o seu cajado da boca, se estancava o sangue com as mãos ou tentava se levantar para sair do quarto em busca de ajuda. Enquanto isso, Marta seguiu com as mãos ainda encharcadas de sangue para fora da casa. Sentia-se bem, com o dever cumprido. Pensava que agora ele jamais assassinaria alguém com aquele cajado preto, roliço e enorme. E se desse sorte de sobreviver, nunca mais menosprezaria o sentimento de uma mãe diante da perda de um filho.

 

Poucas horas depois, Marta foi presa. Fumava tranquilamente em uma cadeira de balanço na pequena varanda nos fundos de casa. A polícia havia sido avisada do urro de um homem. Acharam o corpo de Manolo ao vasculhar a casa. Estava morto dentro do quarto e ao lado da cama, com um enorme pau mole na boca.

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