BANCANDO O HERÓI

As vozes vinda do meu vizinho me incomodam intensamente. Já falei com o síndico para dar jeito no sujeito que bate na filha e violenta a esposa.

 

Na verdade, não sei se segue essa ordem. Pode ser que haja um revezamento: quando bate em uma, estupra a outra.

 

Há dois meses moro neste cortiço: uma espelunca de primeira. Residem aqui de tudo e mais um pouco: entregador de jornal, motoboy, prostituta, michê, gigolô, traficante, escultor e por aí vai.

 

Os gritos continuam. Já estou farto. É tanta injustiça que às vezes tenho vontade de cometer um ato heroico; ser o exemplo para os mais novos. Morrer por algo que valha a pena. E com isso, ficar eternizado na história.

 

Mais gritos.

 

Caralho!

 

Tá decidido, será hoje. É isso ou não mereço este par de bolas que carrego entre as pernas.

 

Vou até a cozinha, pego minha faca de ponta sem fio e encaixo na cintura. Abro minha porta e caminho pelo corredor do prédio.

 

Os gritos são da filha. É uma loirinha com rostinho de boneca despedaçada. Deve ter 10 ou 11 anos...

 

Bato na porta deles.

 

Mais gritos.

 

Bato de novo e uma voz estentórica e rouca pergunta quem é.

 

Bato outra vez.

 

Um homem, sem camiseta e apenas de cueca, aparece sob o marco da porta.

 

O cara é grande: beira os dois metros de altura.

 

Digo-lhe para encerrar aquela algazarra.

 

O homem apenas ri e, gritando, me dá um ultimato:

 

"SE VOCÊ APARECER AQUI DE NOVO, SEU MERDA, DIGA ADEUS AOS SEUS CHINELOS".

 

Não consigo enxergar nada atrás dele: nem a criança, nem a esposa, nem ninguém.

 

Esmurro a porta novamente. O grandão surge com uma barra de ferro na mão. Antes que ele faça qualquer movimento, saco a faca do cós da calça e lhe enfio no abdômen.

 

Agora no pescoço.

 

No peito.

 

E, para finalizar, nas genitálias.

 

Só estando numa cena destas para entender o quanto de sangue corre dentro do corpo humano.

 

O homem cai no chão e eu entro no apartamento, indo até o quarto do casal.

 

A visão é desoladora: a filha está nua e com as mãos amarradas na cabeceira da cama. Parece estar em choque.

 

A esposa é a visão de um hematoma ambulante: seu rosto está inchado e destroçado. Treme-se encolhida em um dos cantos do quarto.

 

Tiro um maço de Dallas de dentro do jeans e, riscando um fósforo, acendo o cigarro. Olho para as duas e digo: "O demônio está morto e vocês livres!"

 

Silêncio. Passo por cima do corpo desfalecido e deixo cair um pouco de cinza sobre o cadáver. Não há ninguém nos corredores. Aqui ninguém se mete na vida de ninguém. As pessoas já tem problemas suficientes para terem de ficar respondendo perguntas de autoridades e coisa e tal.

 

Chaveio a porta de casa e tomo banho. Lavo minha faca e abro a gaveta debaixo da pia. Pego um saca-rolhas e, com carinho, abro a última garrafa de vinho que está guardada há tempos esperando um momento especial para ser saboreada.

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